Museu da Guarda

Património Classificado

Museu da Guarda

Património Classificado

O Concelho da Guarda, inscrito bem no coração da região beirã, entre o Planalto Guarda-Sabugal e a Serra da Estrela, detém um património natural e um património cultural, material e imaterial, de um valor extraordinário. Formado lenta e continuamente ao longo dos tempos, este património, na multiplicidade das suas formas e das suas manifestações, tem o maior significado para as gentes da região e ocupa um lugar cimeiro no imaginário e na própria identidade nacional. Com efeito, o Concelho e a cidade da Guarda detêm algumas das mais intensas, das mais impressivas e das mais bem conservadas paisagens históricas portuguesas.

O espaço natural, o povoamento milenar e uma rica História multi-secular modelaram os modos de vida, as tradições, os costumes e o carácter forte e viril das gentes das Beiras. Aqui, num contexto geográfico rigoroso, que impôs uma austeridade e até uma certa rudeza de modos, formou-se um ecossistema natural e humano único, de uma riqueza e com uma identidade cultural incomparável, que tem o seu epicentro na paisagem urbana da cidade mais alta de Portugal. Com efeito, temos que reconhecer que o grande monumento do concelho é a própria cidade da Guarda, que detém um dos mais belos, mais ricos e mais bem conservados patrimónios construídos de todo o país.

Continua envolta em neblina, em dúvidas e incertezas a vida das comunidades humanas que pela primeira vez calcorrearam e viveram nos montes e vales da região que nós hoje visitamos e habitamos. Pouco sabemos sobre a vida dos primeiros homens que, há muitos milhares de anos, povoaram o território do atual Concelho da Guarda. Desse longo passado pré-histórico conhecemos apenas fragmentos isolados e dispersos, insuficientes para a compreensão dos modos de vida das comunidades que atravessaram o território da Guarda. Assim, para lá dos achados isolados do machado do Outeiro de S. Miguel (Arrifana) e do de Cairrão (Vila Garcia), merece uma referência particular a Anta de Pera do Moço, cuja construção remonta ao período de transição do IV para o III milénio a.C.

Do final do Calcolítico ou já dos inícios da Idade do Bronze, ou seja, dos fins do II milénio a.C., isto é, remonta a cerca de 1800 a.C., chegou até nós a estátua-menir de A-de-Moura (Santana de Azinha), uma escultura antropomórfica monumental que, muito possivelmente, representava um chefe guerreiro, equipado com um cinturão liso e adornado com colares e ostentando no braço um bracelete.

Do período denominado Proto-História, que abrange o final da Idade do Bronze e a Idade do Ferro, temos mais informações sobre as comunidades que habitavam o território da Guarda. Neste período verificaram-se profundas alterações nos modos de vida das comunidades humanas, em parte resultantes de contatos com povos da Europa Além-Perineus. Considera-se que a exploração mineira bem como a subsequente comercialização de metais, nomeadamente o estanho, terão levado ao estabelecimento de contatos com outras comunidades quer vizinhas quer longínquas. A este período remontam povoados tão importantes como o Castro do Caldeirão, o Castro da Pedra Aguda ou o Cabeço das Fráguas. O conjunto de materiais arqueológicos do Museu da Guarda deste período é significativo, desde a espada, em bronze de Vilar Maior (encontrada no Castelo de Vilar Maior, no Concelho do Sabugal, na década de 50 do século XX, tendo sido adquirida pelo Municipio da Guarda em 1957 para integrar a coleção do Museu), uma ponta de lança, em bronze, encontrada na aldeia de Vila Soeiro (no Concelho da Guarda), ou o conjunto de materiais arqueológicos recolhidos em escavações no Cabeço das Fráguas.

A Idade do Ferro, datada a partir do século VII a.C., é caraterizada pelo fabrico e uso de utensílios e armas em ferro, antecedendo entre nós o período da romanização. É possível que o uso do ferro se encontre relacionado com a própria evolução histórica das comunidades humanas, facilitada pelos estímulos, influências e contatos com o exterior. Deste período possuímos diversos povoados, como o Picoto (S. Vicente), ocupado entre os séculos VI-V a.C. Este e outros povoados da região integravam o grupo que os romanos denominaram de Lusitani.

 

Simultaneamente ao processo de conquista do território da Península Ibérica pelos romanos ocorreu a organização administrativa dos territórios conquistados. Assim, em 27 a.C. o imperador Augusto dividiu a Península em três Províncias: Ulterior Bética, Ulterior Lusitana e Citerior Terraconense. Cada Província estava dividida em conventos, encontrando-se a região da Guarda inserido no conventus Emeritenses, com capital em Augusta Emerita (Mérida). O território de cada conventus estava ainda dividido em civitates, territórios que possuíam uma capital regional, de que dependiam administrativamente.

Rapidamente se criou uma rede densa de novos núcleos de povoamento, adaptados às novas condições e exigências do Império.

Em torno dos principais corredores de circulação natural e passando por diversos núcleos de povoamento, a construção sistemática de vias facilitou, numa primeira fase a conquista do território, permitindo a rápida deslocação das legiões romanas de forma a facilitar o processo de conquista e de apaziguamento de sublevações. Numa segunda fase, após a pacificação do território, a rede de estradas – cada vez mais densa – possibilitou a circulação de pessoas e mercadorias, facilitando o processo de romanização do território. Ao longo das estradas, sobretudo das mais importantes, eram colocados miliários, distribuídos em distâncias regulares. A palavra deriva de miliarium, que tinha origem na expressão latina milia passuum (mil passos, cerca de 1940 m). Geralmente de perfil cilíndrico, os miliários continham informações muito relevantes para os viandantes: distâncias a percorrer até chegar a determinada localidade ou a determinado posto de descanso; limites entre determinados territórios administrativos autónomos (província; civitasmunicipia, etc…).

 

A Antiguidade Tardia, período que medeia entre os séculos V e VIII d.C., continua envolto em misticismo. Os dados que possuímos atualmente sobre a região da Guarda permitem-nos afirmar que se verificaram profundas alterações no povoamento e na sociedade. Sobretudo os sítios de maior importância regional denunciam alterações significativas quer no modo de vida das comunidades, quer na sua participação nas redes de comércio, com a presença pouco significativa de materiais importados. Esta situação poderá denunciar não só alterações na rede de povoamento, mas também a decadência muito acentuada ou o próprio fim do intenso e tão longo contacto histórico desta região com essas velhas vias comerciais, então à beira do seu esgotamento. Não obstante, o simples facto de ainda os apresentarem comprova que os sítios de povoamento continuavam a ser ocupados e que ainda nos séculos IV e V se encontravam inserido nas rotas comerciais que cruzavam a Península Ibérica, responsáveis pelo transporte de terra sigillata de fabrico norte-africano. Com efeito, não nos podemos esquecer que ainda no século IV a capital de Província, Augusta Emerita, detinha um papel preponderante na redistribuição de bens e produtos, ganhando mesmo um novo fôlego neste domínio. Este facto denuncia um renascimento económico que terá conduzido à renovação da circulação de produtos nas velhas rotas, de que são testemunho os exemplares de terra sigillata no Mileu, embora certamente muito longe da intensidade das trocas comerciais verificadas no período anterior.

 

Será já na Idade Média, período que medeia entre os séculos VIII e XI, durante o qual o território era pontuado por castelos, fortificações, penellas e castra, que ocorreu o fenómeno do encastelamento. Surge então uma rede de castelos raianos que tinham como objectivo proteger a fronteira do então jovem Reino de Portugal. É então que surge a cidade de A guarda, dotada de uma localização estratégica. A nova cidade, mais interior, fazia parte da rede de castelos que protegiam e defendiam a entrada na Estrada da Beira, uma das principais vias de comunicação do Reino.

Como se sabe, o momento mais importante da história da cidade da Guarda é o da sua fundação pelo rei D. Sancho I, que lhe atribui o seu primeiro foral a 27 de novembro de 1199.

Implantada sobre o último contraforte Norte da Serra da Estrela, a cidade tem um domínio visual esmagador sobre a vasta área circundante. A sua História prende-se com a da Reconquista Cristã, que exigiu a fortificação da fronteira com o vizinho Reino de Leão, que então era definida pelo Rio Côa.

Em 1199, a atribuição da Carta de Foral marca uma primeira etapa na história da jovem cidade, imediatamente promovida a cabeça de uma das maiores e mais importantes dioceses do Reino, em 1202, substituindo a antiquíssima Diocese da Egitania (Idanha-a-Velha), cujo núcleo urbano há muito entrara em decadência.

A criação da cidade e a sua promoção a sede da nova diocese resultaram da vontade política do Rei D. Sancho I, o Povoador, em proteger e favorecer esta região e os seus moradores.

A povoação primitiva detinha um primeiro núcleo fortificado, muito pequeno. Dele resta a chamada Torre Velha, a Torre de Menagem de um primitivo castelo românico quase todo posteriormente absorvido quer na malha urbana quer na futura rede de muralhas construídas na época de D. Dinis, em finais do século XIII. Neste período o núcleo fortificado do castelo e da alcáçova deslocalizam-se, passando para o ponto mais alto e mais desabrido da cidade. Deste complexo militar e residencial resta apenas a Torre de Menagem, implantada a 1056 metros de altitude.

Da Alcáçova partiam as muralhas que rodeavam toda cidade e que alcançavam, no seu extremo Norte, a Torre Velha. Ao longo do seu percurso, em pontos estratégicos, abriam-se portas monumentais, devidamente fortificadas, restando atualmente a Porta dos Ferreiros, defendida por uma altíssima torre de vigia, a Porta da Erva e a Porta de El-Rei.

A linha das muralhas abrigava uma típica povoação medieval, com as suas praças, largos, ruas e vielas. Algures bem no miolo do casco urbano, uma rua ou um pequeno bairro reservado e circunscrito abrigava a comunidade judaica, minoritária embora importante, com as suas habitações, a sua sinagoga e outras estruturas de apoio de teor coletivo. A presença desta comunidade encontra-se atestada na cidade da Guarda, desde o século XIII, período a partir do qual a comunidade e a sua sinagoga aforavam habitações pertença do monarca.

A Guarda medieval é uma cidade muito dinâmica, em constante crescimento e renovação. A Este e Sueste desenvolvem-se importantes rossios abertos que irão ser futuramente urbanizados e polarizadores de uma contínua expansão urbana. Esta começa com a implantação do Convento dos Franciscanos, implantados na cidade ainda no século XIII.

O início da construção da actual Sé remonta à última década do século XIV e inaugura nova revolução urbana na cidade. A sua muito vasta área de implantação impõe um óbvio rasgamento urbano. A construção, muito lenta, do edifício gótico faz com que este seja terminado em pleno contexto manuelino, embora prossigam algumas intervenções pontuais até 1540.

Entre a cidade eclesiástica e a cidade laboriosa, a Praça Luís de Camões – a antiga Praça Velha – proporciona de há muito o espaço público mais central e mais concorrido. A Praça Velha concentrou secularmente a presença do poder religioso e do poder civil, isto é do poder concelhio, administrativo e judicial.

Assim, se a Sé polariza o poder episcopal, a antiga Casa da Câmara, no lado nascente da Praça, construída na segunda metade do século XVI e em uso até há última década do século XX, era a casa do concelho.

A conclusão das obras da Sé e a construção da casa da câmara (a par de outras casas particulares de localização e importância mais ou menos periférica) são as marcas mais importantes do século XVI.

Os séculos XVII e XVIII assinalam-se por importantes campanhas de obras de natureza residencial e institucional, a começar pelo monumental complexo do Seminário e do Paço Episcopal anexo. Paralelamente surgem solares e casas mais ou menos monumentais, dependentes quer de modelos vernáculos quer de modelos eruditos, maneiristas e barrocos.

Ainda da Época Barroca, merecem referência a Igreja de S. Vicente e a Igreja da Misericórdia, reconstruídas ao longo do século XVIII, aquela localizada bem no centro da cidade medieval, esta, no importante arrabalde leste.

O século XIX e o Liberalismo vão trazer nova revolução urbana. É então que a cerca das muralhas é demolida em muito grande parte, sendo a malha urbana medieval rasgada para permitir a abertura de novos arruamentos, como a Rua D. Luís (atual Rua 31 de Janeiro) e a Rua do Comércio. À semelhança de Lisboa e de muitas outras cidades e vilas da Província, também a Guarda ganhará um Passeio Público, espaço belamente ajardinado no velho rossio que outrora proporcionara o Campo da Feira.

A criação do Sanatório, apenas possível com a criação da Linha da Beira Alta (inaugurada em 1882) e a Linha da Beira Baixa, ambas confluentes na Guarda Gare, vão proporcionar a criação de uma nova cidade ferroviária.

A privilegiada localização da Guarda conferiu-lhe uma superioridade climática que continua a ser reconhecida ainda hoje. As origens do Sanatório Sousa Martins remontam aos finais do século XIX, período da História em que Portugal começou uma luta estruturada contra a tuberculose. A 18 de maio de 1907, a Rainha D. Amélia e o Rei D. Carlos I inauguraram os Pavilhões do Sanatório.

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Monumentos Nacionais

Sé da Guarda

Com a transferência da sede de Bispado de Idanha-a-Velha para a Guarda, em 1203, por influência de D. Sancho I, foi necessário promover a construção de uma Sé Catedral. Nada se sabendo do edifício primitivo, sabe-se, porém, que na segunda metade do século XIV se encarou a construção de uma sé nova fora do perímetro amuralhado. A construção da atual Sé Catedral iniciou-se a partir de 1390 mas, dada a envergadura do projeto, as obras arrastaram-se e o edifício só foi terminado em pleno contexto manuelino.

A catedral, orientada no sentido Este-Oeste, de acordo com a norma tradicional, tem a sua fachada principal naturalmente virada a Ocidente. É ladeada por dois torreões muito reforçados, de planta octogonal. O portal, de recorte tipicamente manuelino – como todo o conjunto desta fachada – é encimado por um nicho que abriga desde o século XVI uma belíssima imagem de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da cidade da Guarda.

Todavia, a entrada mais utilizada é a que fica sobre a Praça Luís de Camões, na fachada Norte. Nesta fachada, a mais emblemática da cidade, o que lhe dá um valor icónico singular, abre-se um típico portal gótico encimado por um janelão de estilo já manuelino, constituindo este conjunto um dos mais belos complexos arquitetónicos dos séculos XV-inícios do século XVI construídos a Norte do Mosteiro da Batalha.

O interior da Sé, de grande clareza compositiva, é de conceção gótica, com uma nave central e duas naves laterais, em articulação com um transepto muito desenvolvido e com uma cabeceira de desenho muito puro. A cabeceira é a parte mais antiga do complexo arquitetónico e, como tal, é a mais próxima do que seria o projeto inicial da sé da Guarda, vinculado aos preceitos do gótico mais puro e elegante, tal como formulado, entre nós, no gigantesco estaleiro do Mosteiro da Batalha. A cabeceira da Sé da Guarda, tal como a da igreja deste célebre mosteiro, é muito simples, constituída por uma capela-mor muito desenvolvida ladeada por duas capelas laterais, todas elas de planta poligonal. O arrastar das obras fez com que o projeto fosse sendo ciclicamente atualizado, pelo que também no interior a Sé da Guarda apresenta importantes marcas e influências manuelinas, facilmente identificáveis, de que são exemplo as típicas colunas laterais com o típico efeito “em corda”, semelhante ao entrelaçado das cordas dos navios dos Descobrimentos.

Merece relevo o retábulo monumental do altar da cabeceira, esculpido em pedra de Ançã e atribuído à escola de João de Ruão. Este retábulo representa episódios da Vida de Cristo, que se iniciam com o Nascimento e terminam com a Paixão. Apesar das remoções de importantíssimos elementos arquitetónicos, escultóricos e decorativos durante as sucessivas campanhas de restauro que o edifício sofreu, desde as pioneiras campanhas do Arquiteto Rosendo Carvalheira, ainda nos fins do século XIX, na cabeceira da Sé ainda podemos ainda apreciar os cadeirais dos clérigos, com esculturas em madeira de cabeças de anjos, com diferentes e singulares expressões faciais.

Nas naves laterais duas capelas particulares merecem referência, a Capela dos Ferros e a Capela dos Pinas. Esta última, de portal Renascentista, contém no seu interior a estátua jacente de João de Pina, sobrinho do famoso cronista régio e Guarda-Mor da Torre do Tombo Rui de Pina.

A escala monumental da Sé da Guarda contrasta com o acanhado das ruas e das praças da cidade velha, bem como com a modéstia e a singeleza vernácula da generalidade dos edifícios circundantes. Proporciona um dos ex-libris da cidade e um dos ícones mais intensos de toda a arquitetura portuguesa de origem medieval.

Castelo da Guarda

No âmbito do avanço da Reconquista Cristã e da criação dos diversos reinos cristãos peninsulares deu-se início a um amplo processo de revivificação de velhas cidades e vilas, que as lutas dos primeiros séculos da Reconquista tinham tornado decadentes, semiabandonadas e arruinadas no centro de territórios “ermados” e, paralelamente, deu-se início a um amplo processo de criação de cidades e vilas e à respetiva fortificação.

A criação da Cidade da Guarda e a concessão da sua Carta de Foral por D. Sancho I, a 27 de Novembro de 1199, exigiram a construção de um primitivo castelo românico, do qual apenas sobreviveu, na zona norte da cidade, a denominada Torre Velha, que constituiu a sua Torre de Menagem.

            Com as reformas arquitetónicas e militares dos séculos seguintes a Torre Velha seria integrada e incorporada nas muralhas erguidas ao abrigo do novo sistema defensivo, na segunda metade do século XIII. Nesta época construiu-se a atual Torre de Menagem, implantada a 1056m de altitude. Esta torre encontrava-se integrada numa estrutura militar e residencial denominada Alcáçova, que no fundo constituía um paço fortificado onde residia o alcaide-mor e sua família e que ao mesmo tempo servia de aquartelamento para a respetiva guarnição militar, maior ou menos, consoante as circunstâncias político-militares, as épocas e os recursos disponíveis. Do topo da torre de menagem da alcáçova da Guarda avistam-se outras fortificações, como as de Trancoso e de Pinhel; avista-se a Vila do Jarmelo e a vista alonga-se até às terras fronteiriças, muito para lá do Côa.

            A Alcáçova gótica da Guarda era o coração do moderno sistema defensivo da cidade. Este sistema contemplava, porém, vastíssimos panos de muralha que, partindo da alcáçova localizada no ponto cimeiro da cidade, circunscreviam e abrigavam as casas, paços e igrejas do burgo medieval, adaptando-se às curvas de nível. Como em todas as cidades e vilas medievais fortificadas, as muralhas eram rasgadas ciclicamente por portas monumentais, estrategicamente localizadas face ao arranque das grandes vias de circulação que punham a cidade em contacto direto com o exterior: com a Covilhã e sobretudo com Castela, via Almeida e com Celorico e a partir daqui com a legendária Estrada da Beira, uma das grandes vias de Portugal da Idade Média e da Idade Moderna, que de Celorico levava a Coimbra e a Lisboa. Das portas das muralhas medievais da Guarda sobrevivem a Porta da Erva, a Porta d’El Rei e a Porta dos Ferreiros, esta protegida por uma imponente torre.

Castro do Tintinholho

Localizado no topo de um cabeço isolado do rebordo ocidental do planalto da Guarda, a 920m de altitude, o Castro do Tintinolho é um dos mais emblemáticos sítios históricos do Concelho. Local privilegiado de contemplação, de silêncio e de evocação histórica, onde a natureza exibe o seu esplendor agreste, este sítio proporciona uma das plataformas mais privilegiadas para a observação do Vale do Mondego, desde as serranias que vigiam a aldeia de Vila Soeiro, a montante, até às terras de Celorico da Beira, Trancoso e Pinhel.

Escavações arqueológicas recentes neste povoado denunciam uma ampla diacronia de ocupação do sítio. A mais antiga remontará à Idade do Ferro, tendo sido igualmente ocupado em época romana, e durante a Alta Idade Média.

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Imóveis de Interesse Público

Janela Manuelina do antigo Paço Episcopal

O edifício n.º 41 a 45 localizado no núcleo antigo da cidade, na Rua Francisco de Passos, antiga Rua Direita, é decorado com uma janela inserida no período de transição do estilo manuelino para o renascentista. Esta apresenta um arco trilobado de moldura em meia cana, com diversos motivos, entre os quais se destacam as cabeças de um anjo e de um demónio, jarrões, flor-de-lis e um medalhão com busto, conjunto escultórico encimado pela representação de uma cabeça de anjo.

Chafariz da Dorna

Exemplar de arquitetura de infraestruturas hidráulicas, a sua construção recua a finais do século XVIII ou inícios do século XIX, inserido na corrente histórico-arquitetónica do Eclético. Localizado junto à antiga estrada que se dirigia da Guarda ao Vale do Mondego, nas proximidades do burgo medieval, no arrabalde da Porta d’el Rei, o conjunto – que compreende o Chafariz da Dorna, o pequeno tanque circular fronteiro (bebedouro de animais) e um pequeno lavadouro de roupa – constituía uma “estação de serviço” de apoio aos viajantes.

Prédio Rua D. Sancho 9 / 11 / 13

Localizado no interior do perímetro muralhado, este imóvel é um dos mais antigos do núcleo urbano histórico da cidade, cuja construção nos remete para finais do século XVI ou primeira metade do século XV.

Igreja de S. Vicente

Localizada no interior das muralhas medievais e referida nas fontes escritas desde o século XIII, a Igreja de S. Vicente que hoje podemos admirar é uma reconstrução, inserida no estilo barroco, promovida pelo bispo D. Jerónimo Rogado de Carvalhal e Silva, em pleno século XVIII.

A fachada principal, ladeada por duas torres sineiras, é rasgada ao centro pelo portal em arco abatido, sobreposto pelo janelão do coro-alto e pela pedra de armas do bispo.

No interior desta Igreja, de planta longitudinal, é de realçar o extraordinário trabalho azulejar, azul e branco, com molduras policromas, com figurações de cenas de Nossa Senhora e da vida de Cristo.

Chafariz de Santo André

Proveniente da aldeia da Vela e construído no século XVIII é um dos chafarizes mais monumentais da cidade. Inserido no estilo barroco, entre os elementos escultóricos salientamos os motivos marinhos, como os golfinhos ou as bicas em forma de monstros.

Antigos Paços do Concelho

As casas da câmara (ou casa ou paço do concelho) portuguesas eram a sede do poder local. Como acontece em muitas vilas e cidades portuguesas, peninsulares e europeias, a antiga casa da câmara da Guarda está localizada na principal praça da cidade (a atual Praça Luís de Camões), face à Sé, no centro do espaço amuralhado. A construção do edifício atual – que desempenhou as suas funções históricas até há pouco mais de uma década – é datável de cerca de 1570 ou de um período ligeiramente anterior e assinala a entrada ou a afirmação da arquitetura do Renascimento na cidade da Guarda.

Trata-se de um edifício de planta retangular e desenvolvido em dois pisos. Apresenta uma fachada principal dominada por um pórtico monumental, desenvolvido em arcadas assentes sobre monumentais pilares que ocupam toda a largura da fachada. No segundo piso salientamos três janelas de sacada a ladearem dois brasões, o brasão da Cidade e o brasão do Reino, à esquerda. A fachada é encimada por uma imponente cornija em que se inserem elegantes gárgulas de canhão e a que se sobrepõem pequenos pilaretes ou socos onde se apoiam esferas armilares e urnas decorativas, num total de sete.

No interior do edifício desenvolve-se uma escadaria monumental que dá acesso a diversos compartimentos, entre os quais se destacam o salão nobre – a belíssima sala de audiência de outrora – com teto em caixotões reconstituídos em importantes obras de restauro ocorridas na Época do Estado Novo.

Igreja e Edifício da Misericórdia

Localizada no arrabalde face à Porta dos Ferreiros, a Igreja da Misericórdia é um dos edifícios dos fins da Época Barroca mais imponentes da Guarda. Apesar de documentada nas fontes escritas uma igreja anterior, o edifício que atualmente podemos admirar é uma construção do século XVIII.

Igreja de planta longitudinal, de escala monumental e nave única, a sua fachada principal é travada por uma empena barroca, tipicamente recortada e ladeada por duas torres sineiras recuadas. No seu centro foi rasgado o portal de acesso, em arco abatido, enquadrado por ornatos barrocos muito típicos. A fachada integra as armas reais de D. João V, como era costume em todas as Igrejas da Misericórdia, instituídas sempre por iniciativa régia. No topo da fachada principal um nicho abriga a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia.

O complexo original da Misericórdia da Guarda integrava, como em todas as Misericórdias portuguesas, a Sala do Consistório, onde os irmãos se reuniam e tomavam as decisões relativas à gestão da instituição, o hospital com duas enfermarias, a dos homens e das mulheres e ainda um pequeno cemitério. Deste complexo sobrevive o claustro e a farmácia.

Antigo Paço Episcopal e Seminário

O conjunto arquitetónico formado pelo antigo Paço Episcopal, Seminário e Capela começou a ser construído em inícios do século XVII, sob a égide do Bispo da Guarda D. Nuno de Noronha. Inserido no denominado estilo filipino, ou melhor, no chamado “Estilo Chão”, exibe fachadas de grande austeridade, despojadas de quaisquer elementos decorativos, à exceção da cornija, onde se inserem típicas gárgulas de canhão.

            Trata-se de um amplo conjunto arquitetónico, de planta em U: ao centro foi construída a Capela do Paço Episcopal, ladeada por dois pátios internos, com acesso quer ao corpo onde funcionou o Paço Episcopal (a Norte), quer ao corpo do Seminário, a Sul, onde atualmente funciona o Museu da Guarda.

Igreja Matriz de Aldeia Viçosa

A Igreja Matriz de Aldeia Viçosa, cujo orago é Nª Sr.ª da Conceição, é – pelo conjunto do edifício e das peças de arte sacra que abriga – uma das mais ricas igrejas do concelho da Guarda. Com efeito, esta igreja detém um notável repositório das artes decorativas dos séculos XVI, XVII e XVIII, destacando-se o trabalho de talha, a pintura e a estatuária.

            Enquanto museu de arte sacra, na capela-mor merecem visita a pintura quinhentista “A Virgem, o Menino e Anjos Músicos”, que estudos mais recentes atribuem à oficina de Grão Vasco e ainda o túmulo quinhentista de Estêvão de Matos, escudeiro de D. João III.

Ponte antiga de Valhelhas

Imponente ponte sobre o rio Zêzere, com quatro arcos de volta perfeita, construída em 1631.

Anta de Pera do Moço

Constituindo o monumento principal e mais visível pré-histórico do concelho, a anta de Pera do Moço remonta ao período de transição do IV para o III milénio a.C., época em que se construíam grandes monumentos funerários individuais. Consta de uma câmara definida por cinco esteios verticais que suportam uma laje de cobertura, sendo originalmente todo o conjunto ocultado por terras e pedras, formando uma espécie de colina simbólica ou votiva.

Capela Nossa Senhora do Mileu

A construção da Capela de Nossa Senhora do Mileu data da Idade Média e o edifício insere-se numa derivação provincial do Estilo Românico. De dimensões modestas, apresenta uma estrutura arquitetónica muito simples, sendo constituída por dois corpos contíguos um ao outro: uma capela-mor e uma nave única, ambas de planta retangular, unidas por um arco triunfal de perfil já ogival. Merecem destaque as colunas de sustentação deste arco, cujos capitéis exibem motivos vegetalistas, representações de aves, demónios e de uma figura humana. Igualmente dignas de registo são as figurações que decoram a teoria de cachorros que, no exterior da capela, sublinham a cornija superior das duas paredes laterais da capela.

            Apesar da sua singeleza, a capela românica da Senhora do Mileu é um exemplar típico da arquitetura religiosa portuguesa da época medieval, na sua vertente paroquial e rural. Como por toda a parte, destaca-se a cobertura apoiada numa estrutura de madeira e, em particular, o uso de blocos graníticos regulares para a edificação dos paramentos, o que proporciona um belo e sólido aparelho, em que se rasgam os típicos portais de acesso.

            Trata-se de um exemplar típico da arquitetura religiosa medieval, em que se recorreu à madeira na cobertura, e a regulares blocos graníticos para a edificação dos paramentos, proporcionando um belo e sólido aparelho. Merecem reparo os portais e a típica cachorrada contínua a sustentar o beiral.

Estação arqueológica da Póvoa do Mileu

O sítio romano – de que não havia a mais pequena notícia – foi descoberto acidentalmente em 1951, durante as obras de construção da Estrada Nacional que liga a cidade à Guarda-Gare. Nessa altura foram postos a descoberto diversos achados e compartimentos identificados como sendo as componentes centrais do edifício termal do século I d.C.

            As estruturas arquitetónicas detetadas correspondem a uma implantação urbana de alguma envergadura. Do mesmo modo, os importantes restos arqueológicos já exumados proporcionam um testemunho muito apreciável das mais sofisticadas formas de vida que associamos à civilização romana. Face aos achados, tudo indica que este sítio tenha tido elevada relevância no quadro da romanização desta região da Província da Lusitânia.

Castro do Jarmelo

Implantado no topo do Cerro do Jarmelo, que se destaca e se eleva sobre a relativa planura das terras envolventes, do Castro do Jarmelo avista-se um vasto território que vai desde a Serra da Marofa ao Cabeço das Fráguas, e desde as vertentes orientais da Serra da Estrela até aos territórios fronteiriços espanhóis.

O valor estratégico da sua localização terá sido um dos fatores mais relevantes no assentamento de comunidades humanas neste sítio. A sua primitiva ocupação remonta possivelmente à Idade do Ferro. Todavia, é durante a Idade Média que o sítio ganha notoriedade, pois se torna a sede do famoso concelho do Jarmelo, que seria extinto apenas em 1855, no âmbito do processo de “arredondamento dos concelhos” que então se concluía com a extinção de cerca de 300 velhos concelhos de origem medieval.

O elemento de maior destaque do Castro do Jarmelo é a linha de muralhas que o circunscreve e que ainda hoje rodeia o topo da elevação. Erguida em alvenaria, apresenta uma planta ovalada, na qual foram rasgadas três portas, a Leste, a Sul e a nascente. Como por toda a parte, esta linha de muralhas tinha uma função eminentemente defensiva, protegendo e abrigando durante séculos no seu perímetro quer os residentes, quer os moradores das quintas e aldeias mais próximas. Com efeito, nos amplos terreiros exteriores às portas orientadas para Sul e Oeste desenvolver-se-iam importantes arrabaldes, onde ainda sobrevivem as duas igrejas paroquiais, a de S. Pedro com o seu campanário isolado e a de S. Miguel, bem como a antiga, rara e bem conservada casa da câmara do Concelho.

Como nas demais cidades e vilas das Beiras, a perda do valor estratégico e militar da Vila do Jarmelo iniciou-se com os alvores da Época Moderna. É então que, perdida a sua função defensiva, se inicia o abandono da cerca muralhada, deslocando-se a população para as zonas planas e férteis dos territórios circundantes.

Cruzeiro

 Atual pelourinho é uma construção de meados de Quinhentos. Levanta-se no largo principal de Valhelhas, diante dos antigos Paços do Concelho e cadeia comarcã. O soco é composto por sete degraus octogonais, que atestam da importância do concelho na época de construção do pelourinho; directamente sobre este soco ergue-se o fuste, também octogonal, sustentando um capitel composto por anéis octogonais e uma gola central, com a data de 1555 inscrita numa face, e números romanos quase ilegíveis nas restantes. O capitel serve de base a um tabuleiro circular e ao remate do pelourinho, que constava de cinco pináculos bojudos, quatro menores, dispostos em cruz e apoiados em pequenas mísulas sobressaindo do tabuleiro, e um central, de maiores dimensões. Dois dos pináculos pequenos encontram-se truncados.

Pelourinho da Guarda

Embora as fontes escritas atestem a presença do pelourinho da Guarda junto à casa da câmara medieval, de há muito se perdeu o seu rasto, bem como do primeiro edifício que abrigou a câmara da cidade. Alguns investigadores consideram que do pelourinho da Guarda sobrevive o pequeno fuste, de perfil octogonal, com remate em capitel curvo e decorado com motivos fitomórficos, de há muito adaptado de modo a servir de apoio a um cruzeiro barroco, localizado no Largo João de Almeida.

Capela de S. Pedro de Verona (Vila Soeiro)

Implantada em pequeno promontório sobre o vale do rio Mondego, a construção desta capela remonta ao século XVI. O seu portal, em abóbada de berço, é o elemento arquitetónico mais destacado. No interior, de uma só nave, destaca-se um conjunto ímpar de pinturas murais do século XVI, a fresco, representando cenas da vida de Cristo, de que restam figurações da Fuga para o Egipto e do episódio de Jesus entre os Doutores.

Museu da Guarda

Conjunto de Interesse Público

Antigo Sanatório Sousa Martins

A privilegiada localização da Guarda conferiu-lhe uma superioridade climática que continua a ser reconhecida ainda hoje. As origens do Sanatório Sousa Martins remontam aos finais do século XIX, período da História em que Portugal começou uma luta estruturada contra a tuberculose. A 18 de maio de 1907, a Rainha D. Amélia e o Rei D. Carlos I inauguraram os Pavilhões do Sanatório.

Museu da Guarda

Imóveis de Interesse Municipal

Prédio na Rua Francisco de Passos

Com uma construção que recua ao século XVII, localizado na principal artéria da cidade, a antiga Rua Direita, o edifício insere-se no conjunto de edifícios que marca a afirmação do Renascimento na cidade. É caracterizado pelos portais com moldura de meia cana, rodeados por pilastras caneladas sobrepostas por frontão e a cornija saliente em cantaria interrompida por gárgulas de canhão estriadas.

Edifício na Rua de D. Sancho I e Largo do Passo do Biu

Edifício localizado num pitoresco e histórico conjunto urbano, nas proximidades da Porta da Erva, no interior do perímetro muralhado, a sua construção – que recua ao século XVII – insere-se no amplo conjunto de imóveis integrados no denominado estilo filipino, com cornija saliente em cantaria, janela de ângulo e janelas de sacada.

Edifício na Rua de D. Sancho I e Largo do Passo do Biu

Edifício localizado nas proximidades da Porta da Erva, no interior do perímetro muralhado, a sua construção remonta ao século XVI, como o atestam as janelas manuelinas. No século XVII o edifício terá sido intervencionado, introduzindo na construção elementos arquitetónicos do denominado estilo filipino: cornija saliente em cantaria, interrompida por gárgulas de canhão estriadas.

Prédio urbano na Rua Francisco de Passos

Localizado na principal artéria do núcleo histórico intra-muralhas, a antiga Rua Direita, neste imóvel – cuja construção recua ao século XVI – será de destacar a janela de sacada ao nível do terceiro registo, com varanda assente sobre duas mísulas em meia-cana.

Edifício na Rua de D. Sancho I e Largo do Passo do Biu

Este imponente edifício, localizado no Largo de S. Vicente, cuja construção remonta ao período de transição do século XVI para o XVII, marca a afirmação plena da linguagem arquitetónica do Renascimento na cidade. É de salientar a sua fachada principal em cantaria belamente aparelhada, onde se rasga o portal principal ladeado por pilastras caneladas, janelas sobrepostas por friso comum e uma janela de canto. A fachada termina na cornija saliente em cantaria, interrompida por gárgulas de canhão estriadas, tão típicas da arquitetura tardo-quinhentista e seiscentista de matriz erudita da Guarda.

Solar na Rua do Encontro

Localizado no exterior do perímetro muralhado, a sua construção recua ao século XVI.

Casa na Rua dos Clérigos

Referenciado como um dos imóveis de cronologia mais antiga do núcleo histórico da cidade, pois a sua construção recua ao século XV, este imóvel localiza-se nas proximidades da Sé Catedral e da Porta dos Ferreiros, rasgada no pano de muralha da Guarda. Entre as características do imóvel destacam-se duas portas geminadas, uma rematada em arco hexagonal e a outra em arco quebrado, sobrepostas por duas janelas de lintel denteado.

Casa do Alpendre

Construída no exterior da Porta d’el Rei da cerca medieval, a construção deste edifício remonta ao fim da Idade Média, embora tenha sofrido uma ampla remodelação em inícios do século XVII, atestada na construção do característico balcão alpendrado com uma bela e rara escadaria de dois lances simétricos de serventia à entrada da casa. O belíssimo e típico alpendre, é o elemento mais destacado da outrora muito airosa fachada principal da casa, hoje parcialmente soterrada pelo alteamento do nível da rua fronteiro, imposto pelas sucessivas camadas de empedrado sobreposto no decorrer dos últimos dois ou três séculos.

Antigas casas dos Magistrados

Conjunto de três edifícios residenciais localizados no Bairro do Bonfim.